O Mar!
Cercando prendendo as nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias, batendo a sua voz de encontro aos montes,
… deixando nos olhos dos que ficaram a nostalgia resignada de países distantes …
… Este convite de toda a hora que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir e ter que ficar! …
— Poema do Mar, Jorge Barbosa

São Vicente, o salto para a modernidade – Por Lucy Bonucci


Segundo o site Esquina do Tempo, numa histórica publicação dos principais momentos sobre a implantação da energia elétrica em São Vicente, Cabo Verde, assinado por Lucy Bonucci, uma das descendentes do armador italiano Gaetano Bonucci e depois Pietro Bonucci principal articulador da implantação da energia elétrica na ilha, dessa forma o compartilhamos.

São Vicente, o salto para a modernidade – Por Lucy Bonucci

Recuando no tempo, rebobinado o filme da história, fixando as datas mais marcantes, tudo começa com a descoberta de S. Vicente no dia 22 de Janeiro de 1462. Durante quase quatro séculos, a ilha manteve-se desabitada e durante muitos anos relegada ao esquecimento.

As várias tentativas de fixar gente na ilha, sempre se mostraram bastante difíceis, principalmente devido à endêmica falta de água. O que é hoje o Mindelo, não passava de um simples lugarejo onde os pescadores das ilhas vizinhas encontravam abrigo nas suas lides da pesca.

Segundo relatos da época, só em 1795 foi concedida a autorização para iniciar o seu povoamento, tendo então chegado os primeiros colonos a S. Vicente: vinte casais e cinquenta escravos, trazidos do Fogo. Uma dúzia de barracas e cabanas foram então erguidas no local onde hoje se localiza a Pracinha da Igreja, constituindo a Aldeia de Nossa Senhora da Luz.


Em 1819, não tendo São Vicente mais de 120 habitantes, o governador António Pusich, apercebendo-se das potencialidades do Porto Grande, traz mais 56 famílias de Santo Antão. Sonhando com a criação de uma cidade, rebatiza a povoação com o pomposo nome de vila Leopoldina.

Em 1838, a companhia inglesa East Índia estabelecia em São Vicente o primeiro depósito de carvão, ao mesmo tempo que, na metrópole o Marquês de Sá da Bandeira decretava que a povoação na baía do Porto Grande adotasse o nome de Mindelo.
1926 - Implantação da Eletricidade em Cabo Verde
Em 1879, época em que a povoação já tinha 27 ruas, 1 praça – a célebre Praça D. Luís, iluminada por um bonito candelabro – 5 largos, 11 travessas, 1 beco e 2 pátios, quase todos calcetados, arborizados e iluminados por um total de 120 candeeiros de petróleo, e uma população de 3300 habitantes, Mindelo foi formalmente elevada à dignidade de cidade. Assim cerca de quarenta anos após a sua fundação, Mindelo torna-se cidade por mérito próprio, e o seu porto, o Porto Grande, o motor do seu desenvolvimento.

Devido ao importante papel na navegação internacional da época, São Vicente desde cedo absorveu, como mais nenhuma das outras ilhas do arquipélago, o contato com outras gentes, culturas e costumes. O Porto Grande torna-se então um importante ponto estratégico nas ligações entre a Europa e o Atlântico e a ilha recebe fortes influências provenientes do mediterrâneo, com destaque para as oriundas da Madeira e Açores, e mais tarde de outros países europeus, como Inglaterra e Itália.
É a partir dos finais do século XIX que, na cidade do Mindelo, graças ao seu porto, se começa a implementar uma nova estrutura socioeconômica, com novos hábitos e gostos, trazidos pela forte presença inglesa e italiana na ilha. Mindelo desenvolve-se baseado na centralidade do porto, fruto do grande volume de capitais e mão-de-obra. Assim, graças à sua privilegiada posição estratégica, São Vicente conhece uma hegemonia que contrasta com as outras ilhas do arquipélago. A sua economia depende, quase na sua totalidade, das atividades relacionadas com o Porto, principal fomentador do comércio e atividade da região. Mindelo enche-se de oficinas de toda a espécie. A vida fervilha por toda a ilha. Por essa altura, Mindelo tornou-se num importante centro cultural agregador de culturas dos mais diversos pontos da Europa, com especial relevo para a música, a literatura e o desporto.

Por força da influência da revolução industrial inglesa, a cidade desenvolve-se graças ao negócio do carvão. Formam-se grandes grupos sociais de empregados, domésticas e de mão-de-obra de crioulos livres. A cidade era então conhecida por morada, pois era o lugar onde se encontravam as casas de moradia, em oposição aos casebres das pessoas pobres, que se espalhavam em torno da urbe.

Falar no desenvolvimento da cidade do Mindelo é falar no desenvolvimento da atividade comercial inglesa, italiana, pois ambos estão intrinsecamente unidos. A presença dos ingleses e dos italianos na ilha, cedo se faz notar. Esta grande comunidade cria um clima de bem-estar, refletido nos produtos de qualidade que se comercializam, pelas inúmeras atividades culturais e desportivas que fomentam e que transformam Mindelo numa cidade de sonho, o que não acontecia em nenhuma outra ilha de Cabo Verde.
São Vicente desenvolve-se e torna-se num porto seguro para as pessoas provenientes das outras ilhas. Cria uma sociedade que é mais solidária e culturalmente mais desenvolvida.

Neste Mindelo, a fervilhar de vida, uma comunidade de comerciantes que chega a ter algum peso é a italiana. Estimulados pelo mercado criado pelos numerosos passageiros desta nacionalidade que escalam o Porto Grande a caminho de Buenos Aires, Montevidéu e Santos, instalam-se na cidade mercadores transalpinos, abrindo bazares, lojas de ‘souvenires’, bares e restaurantes. Pietro Polese, Cavassa Giuseppe, Massoca Mattili, Gaetano Bonucci, são alguns dos importantes comerciantes italianos da praça do Mindelo. De tal modo forte foi a presença das companhias italianas em S. Vicente, que levou o cidadão transalpino Giobatta Morazzo a fundar um estaleiro de reparação naval na praia da Matiota. A estes, juntaram-se depois outros, como por exemplo Giuseppe Frusoni ou Pietro Bonucci, tio de Sérgio Frusoni, dono da Loja Central e mais tarde proprietário da Central Elétrica do Mindelo.

A história dos Bonucci em Cabo Verde começou assim nos meados do Séc. XIX com a chegada de Gaetano Bonucci á frente de uma frota de navios da pesca do coral, tendo depois aportado em S. Vicente e aí fixado residência e atividade comercial.

Da sua presença temporária em Cabo Verde, Gaetano Bonucci e Deosolina Giovagnoli, acabaram por deixar descendência, vindo alguns deles, mais tarde a desempenhar um papel importante na história de S. Vicente, nomeadamente Pedro Bonucci, e Sérgio Frusoni.

A presença dos Bonucci em São Vicente está intimamente ligada a todo o processo de modernidade que a cidade veio a sofrer no início do século XX, quer na área comercial e industrial, quer na vertente cultural.

Assim foi na busca do sonho da modernidade, que numa sessão da Câmara Municipal realizada algures na primeira metade de 1914 que surgiu a ideia de se substituir a iluminação pública vigente, do sistema Kitson, por uma rede elétrica. A proposta, assinada por Júlio Alves da Veiga, presidente da edilidade são-vicentina, e pelo vereador César Serradas, tinha apenas a finalidade de fazer com que se estudassem os meios de se tornar viável o projeto. Mas, previdentes, apelaram ao senador Vera-Cruz para que este com o seu zelo pelo desenvolvimento e progresso da província e, em especial da ilha de São Vicente, procurasse obter propostas em condições as mais vantajosas para o fim que se tinha em vista. Pretendia a Câmara pedir um empréstimo para prover as carências de tarefa de tamanha envergadura, para a qual não possuía os meios necessários, devido à escassez do seu orçamento. A Folha de S. Vicente lamentava o fato de se ter gasto muito dinheiro com o sistema de iluminação a acetileno e depois com os candeeiros Kitson, alegando que esse montante poderia ter sido aplicado à partida no moderno sistema elétrico de iluminação.

Assim antes da instalação da rede elétrica no Mindelo, a cidade foi primeiramente iluminada com lanternas a petróleo, as quais eram acesas todos dias ao fim da tarde por um grupo de 6 acendedores de Comissão Municipal de S. Vicente, lanternas essas que pendiam de triângulos de ferro forjado implantados em pontos estratégicos da cidade.

Mais tarde no início de 1923, foram importados 30 candeeiros Kitsons de 500 velas e 6 de 1000 velas, o que veio melhorar substancialmente a já deficiente iluminação pública, dado que os Kitsons davam uma luz forte e viva com alcance de várias dezenas de metros.

Entretanto em 18/4/1922, a Comissão Municipal em face do crescimento da cidade, abriu concurso público para o exclusivo de iluminação pública e particular. O tempo foi passando e só cerca de dois anos depois, isto é, em 29 de Maio de 1924 se começou a concretizar essa ideia. Elaborou-se um contrato entre a Comissão Municipal e os cidadãos Pedro Bonucci e João Rocheteau Leça, para a iluminação pública da cidade do Mindelo.

Antes disso, a mesma comissão havia feito vários contatos com os Correios, Telégrafos e Telefones de Cabo Verde, no sentido do aproveitamento dos grupos eletrogêneos que aqueles serviços possuíam nas suas instalações.
Contudo, só no dia 6 de Agosto de 1925, 11 anos depois, a eletricidade deu verdadeiramente o primeiro passo no Mindelo, através da assinatura do contrato para fornecimento da nova energia entre a Câmara Municipal de São Vicente e os industriais Pietro Bonucci e João Rocheteau Leça. À frente do Município de então estava Francisco Augusto Regala, o médico militar para sempre amado pelos mindelenses que assim punha em prática a deliberação tomada pela Assembleia Municipal no ano anterior. Há 90 anos, portanto.

O projeto de contrato estabelecia um acordo por 50 anos para iluminação pública, privada e fins domésticos. A primeira iluminação pública consistia na utilização de 40 lâmpadas de 200 velas e 80 de 100 velas, todas com refletor e colocadas nos lugares que a Comissão Municipal determinasse. Do contrato constava, entre outras coisas a obrigação de se ligar a corrente 30 minutos antes do ocaso do sol até 30 minutos antes do nascer do sol.
Pedro Bonucci e João Leça , dois proeminentes cidadãos da sociedade Mindelense, levaram assim a cabo essa grande tarefa, que levou mais de dois anos a tornar-se realidade, o que viria a acontecer no ano de 1926. Viu-se assim a cidade do Mindelo apetrechada de um melhoramento de alta valia, aliás, bem merecida tendo em atenção a grande importância do seu porto internacional.

A primeira central elétrica foi instalada numa zona em frente à praia da Laginha, e a energia fornecida era a corrente contínua. Tempos depois, para minorar a perca devido à natureza da corrente, a central seria transferida para mais perto da cidade, tendo ficada instalada perto da Praça Nova.
A iluminação pública naquele tempo era circunscrita à área de cidade propriamente dita. As zonas periféricas, Monte Sossego, Ribeira bote, Fonte Filipe, Fonte Francês, Cruz, Chã de Alecrim, Madeiralzinho, Monte, etc., só começaram a ter energia elétrica mais tarde, no tempo de Júlio Bento de Oliveira, presidente da Câmara Municipal de S. Vicente de 1947 a 1960, que teve assim o mérito de dar continuidade à obra iniciada por Pedro Bonucci e João Rocheteau Lessa, quando a Câmara Municipal tomou a seu cargo a produção e distribuição de energia, e assumiu a direção da Central. Nessa altura procedeu-se então a uma remodelação na rede, e no tipo de corrente fornecida, que passou da contínua para alterna, o que vai permitir e facilitar a expansão da rede elétrica para outros pontos da cidade.

Ainda sobre a história da eletrificação da cidade do Mindelo, para além dos mentores e daqueles que idealizaram e levaram a cabo a edificação dessa tarefa, Pedro Bonucci e João Rocheteau Leça, há a realçar também a colaboração e trabalho importante feito por outras figuras que ajudaram à consolidação desse projeto.

Júlio Alves da Veiga, César Serradas, senador Vera-Cruz, Francisco Augusto Regala, médico, que se encontrava à frente do Município, e que colocou em prática a deliberação tomada pela Assembleia Municipal, dando verdadeiramente o primeiro passo através da assinatura do contrato em 1925, João de Oliveira Santos (João Bentim) eletricista e colaborador durante anos na Central nhô Pidrim, César Pinheiro, Basílio Tavares, presença na central nos tempos em que esteve instalada na zona da Praça Nova, o maquinista António Fonseca (Totoi de Matiota), o eletricista Djindja, enfim de todos aqueles que ajudaram a escrever a história do Mindelo moderno.

Passaram-se assim 90 ANOS, sobre um acontecimento que constitui um marco importante na história da cidade, que assinalou a passagem para a era da modernidade. No espaço de quase um século, passou-se da quase obscuridade dos candeeiros a petróleo, para os tempos claridosos, que o acesso às novas fontes de energia permitiram, da queima dos combustíveis fósseis para o aproveitamento hoje das energias renováveis.

Este não é apenas mais um encontro de amigos, mas também uma janela aberta para se debater o que foi a construção da realidade mindelense, o empreendedorismo de todos aqueles que à sua maneira contribuíram para essa mesma realidade.

Do seu período áureo, a cidade ainda conserva um centro histórico relativamente bem preservado, onde predomina a arquitetura de estilo colonial. Aqui é bem patente toda a influência proveniente de outras paragens. O Mindelo faz lembrar as cidades portuguesas do início do século XX e por todo o lado se sente esta interposição. 

Atualmente, o perímetro da cidade alarga-se muito para além da Praça Nova, que, a quando da sua construção, se situava fora dos limites da então cidade.

Passaram assim 90 anos de um feito, e uma data que devia já ter tido o devido destaque e reconhecimento por parte da própria cidade e da Câmara Municipal do Mindelo, em memória de todos aqueles que das várias maneiras contribuíram para que essa obra tivesse sido uma realidade.

Ao longo da sua história, S. Vicente não conseguiu reter muitos dos seus quadros, pois, ao longo dos anos, foi sofrendo de uma verdadeira hemorragia.

Existiram, porém, aqueles que resistiram e teimaram em ficar, como foi o caso de Pedro Bonucci, que acreditou e resolveu investir na sua terra em vez de ter optado por outras soluções mais vantajosas.

Hoje, passeando pelas ruas do Mindelo, a impressão que fica é que a cidade está algo parada, que as pessoas sofrem de um sentimento de orfandade, de abandono e de perda.

Não, não é esta a Mindelo que queremos para nós - uma Mindelo que as pessoas só visitam nas férias e quando se reformam. A Mindelo que queremos é aquela onde as pessoas possam fazer a sua vida, com oportunidades e realização profissional. Não uma Mindelo que só viva de momentos pontuais de pujança ou apenas das lembranças dos bons tempos de diazá.

O Mindelo que desejo é aquele Mindelo doce e singelo, cosmopolita, aquele Mindelo das noites calmas e silenciosas. Temos saudades desse futuro!

São Vicente, o salto para a modernidade
Por Lucy Bonucci
Fonte: Esquina do Tempo

Nosso mais sincero agradecimento ao Investigador de História e História da Arte, ex-docente e escritor ao nosso Joaquim Saial responsável pelo site Praia de Bote.